Dinâmicas e processos: por entre a psicologia e a música

Autor: Ana Rita Ribeiro/quinta-feira, 17 de maio de 2012/Categorias: Notícias

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Dinâmicas e processos: por entre a psicologia e a música

Realizou-se, no dia 5 de Maio de 2012, o 7.º Encontro Internacional de Musicoterapia, este ano dedicado ao tema "Dinâmicas e processos: por entre a psicologia e a música", organizado pela Associação Portuguesa de Musicoterapia, com o apoio da Universidade Lusíada de Lisboa.

O encontro teve início com a intervenção da Prof.ª Doutora Patrícia Pellizzari, que veio partilhar a sua experiência de musicoterapeuta na Argentina, como um processo de articulação entre a psicoterapia e a musicoterapia. Apresentou alguns vídeos das suas sessões, dando, depois, especial destaque ao processo de intervenção, baseado na improvisação e na musicoterapia. No processo de intervenção, constituído por variantes sonoras e psicológicas, é preciso dar especial atenção ao processo de pensamento, de simbolização, de juízo e de plasticidade psicológica.

A Prof.ª Doutora Teresa Leite deu início ao primeiro painel com uma intervenção tendo em conta a sua experiência como psicoterapeuta, em particular, na tentativa de compreender porque é que há utentes que resistem à terapia, acabando por comprometer o objectivo que se procura nas sessões, que é o da mudança no utente, através da tomada de consciência dos seus padrões de conhecimento (insight). O processo de psicoterapia precisa de tempo, é baseado numa reflexão verbal, na criação de uma ligação/relação entre terapeuta e utente (só há sucesso na psicoterapia, se existir uma mobilização de afectos) e na repetição de temas de conversa, situações e episódios. Só assim é possível assistir à mudança no utente. No entanto, há pacientes que resistem a esta mudança. Actualmente, a resistência é considerada como um evitamento da situação de vulnerabilidade (partilhar situações de vida com um estranho) e de mobilização de afectos que ocorre no estreitamento do vínculo entre terapeuta e utente, mas antes era interpretado como uma defesa contra a tomada de consciência (verbalização dos reais problemas). Para que a resistência não seja um obstáculo ao sucesso da psicoterapia, hoje em dia não se procura a tomada de consciência por si só, apostando-se na interpretação, que vai permitir, ao utente, essa mesma tomada de consciência dos conteúdos ansiogénicos e de padrões disfuncionais, conduzindo, assim, ao insight, e, por conseguinte, à mudança.

De seguida, interveio o Dr. João Laureano, Musicoterapeuta, que desenvolve o seu trabalho com crianças com dificuldades da relação, da expressão e da comunicação, através da linguagem universal da música.

Numa perspectiva da etnomusicologia, o Prof. Doutor Ricardo Futre Pinheiro encerrou este painel com uma comunicação dedicada aos processos de performance e socialização no Jazz. Devido à sua vivência em Nova Iorque, foi um espectador privilegiado de Jam sessions, oportunidades performativas através da improvisação. Estas sessions são um meio fundamental para a socialização dos músicos de jazz, no que diz respeito à integração no universo do jazz (jazz scene). É possível estabelecer redes de contactos profissionais que podem, um dia, ser peças fulcrais na construção de uma carreira. Para além de um espaço de socialização, as jam sessions fazem parte do processo de aprendizagem do jazz, onde é possível entrar em contacto com outras realidades sonoras e descobrir novos timbres e melodias. Participar nas sessions permite, também, aos jovens músicos, construir um sentimento de pertença (brotherhood) e uma ferramenta de entrada nesta comunidade, pois funcionam como verdadeiros centros de recrutamento.

O segundo painel foi constituído por três intervenções das mestrandas de Musicoterapia, a Dr.ª Marisa Raposo, a Dr.ª Helena Brites e a Dr.ª Mónica Ferreira, que vieram apresentar o trabalho desenvolvido nos estágios do mestrado, a nível da intervenção em contexto hospitalar com deficientes visuais, da utilização da musicoterapia como motor de socialização de idosos institucionalizados e da promoção da relação mãe/recém-nascido, respectivamente.

Os workshops realizados da parte da tarde, a cargo da Prof.ª Doutora Patrícia Pellizzari, do Dr. Luciano Moura e do Mestre António Neves da Silva, tinham como objectivo partilhar diferentes dinâmicas e processos da musicoterapia, da psicoterapia e da música.

No seguimento dos trabalhos, este encontro contou, ainda, com a presença de uma das maiores referências académicas portuguesas na área da psiquiatria e da psicanálise, o Prof. Doutor António Coimbra de Matos. Com uma comunicação sobre a função intencional da mente humana, o Prof. Doutor Coimbra de Matos afirma que, o que nos distingue dos outros seres vivos é a capacidade de projecção do futuro, de termos consciência que existe um futuro, através do qual procuramos realizar as nossas intenções, i.e. a intencionalidade. Ele estabelece uma comparação entre o paradigma das pulsões (psicanálise clássica), cujo objectivo é atingir um objectivo, e o paradigma centrado nas relações (relações humanas, interpessoais, paradigma influenciado pela microsociologia), cuja finalidade é construir relações com o mundo e com os outros. O paradigma das pulsões pretende descobrir o porquê das coisas, enquanto que o paradigma da relação procura descobrir a finalidade das coisas.  O Professor concorda com o pensamento do psiquiatra John Bowlby, que diz que o comportamento humano define-se mais por finalidades do que por causas, pois pretende atingir determinada finalidade (i.e. intenção). Terminada esta pequena introdução teórica, Coimbra de Matos discursa sobre o desenvolvimento do recém-nascido que, devido à complexidades das redes de comunicação do cérebro humano, é possuidor de uma relativa capacidade de compreender, mas tem pouca capacidade psico-motora. Sendo dependente de um cuidador, o recém-nascido tem uma enorme necessidade de descortinar a intencionalidade deste e, ao mesmo tempo, tem a necessidade de prever, de saber o que vai acontecer. Vive, por isso, em angústia permanente, pois é indefeso, mas possui percepção. Vem de um mundo onde recebe poucos estímulos e, ao nascer, é inundado por milhares de estímulos que tem de conseguir organizar. É aqui que a "música tem um papel importante, pois estabelece ritmos, cadências que vão procurar organizar este mundo caótico. Aliás, as mães fazem isso instintivamente, cantam, falam de uma maneira a cantar, [utilizam] a prosódia, gestos, palavras destacadas, para que a criança vá aprendendo a organização do mundo, os ritmos e, portanto, o mundo começa a ser menos caótico." Fazendo a ponte com a musicoterapia, o Professor afirma que é importante escolher as canções de acordo com a natureza da criança e da sua intencionalidade e que, só assim, é possível estabelecer um vínculo afectivo com a criança, pois o fundamental nas relações humanas é ter uma perspectiva objectal em que o outro é o mais importante, à semelhança do que acontece na relação terapeuta/utente referida pela Prof.ª Doutora Teresa Leite.

O pianista e compositor Mário Laginha foi o último convidado desde encontro internacional. Veio partilhar a sua experiência sobre o processo criativo no Jazz, considerando que a chave para ser um bom compositor é de saber "lidar com o facto de não sermos génios e fazer o melhor que se pode". No processo de criação não nega o papel central das referências musicais de cada indivíduo, referindo que se deve ir para além delas. Afirma que não é um processo espontâneo, pois cada um tem um repertório que o acompanha, mas que também não deve ficar agarrado ao que já existe. Disse, também, que a música instrumental é mais permissiva para o receptor, i.e., ele tem a liberdade de criar a sua própria história, pois não está condicionado com um poema que o leva para qualquer lugar. No final da sua intervenção brindou o público com algumas notas ao piano.

O grande objectivo deste encontro foi o de "reunir os profissionais da Música, da Psicoterapia e da Musicoterapia em torno de uma reflexão enriquecedora sobre as dinâmicas vivenciais e os processos psicológicos inerentes à prática musical, à intervenção psicoterapêutica e à utilização da música em contexto de intervenção terapêutica." (Teresa Leite)

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