Primavera Árabe: implicações para a Europa e os EUA

Autor: Ana Rita Ribeiro/sexta-feira, 18 de maio de 2012/Categorias: Notícias

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Primavera Árabe: implicações para a Europa e os EUA
"O Espaço Euro-Atlântico e a Primavera Árabe um ano depois: que estratégias para a Europa e os Estados Unidos?" foi o título da conferência organizada pela Prof.ª Doutora Patrícia Vitória Pichler Daehnhardt que se realizou na Universidade Lusíada de Lisboa (ULL), no dia 14 de Maio de 2012.

Esta conferência trouxe à ULL dois investigadores que se propuseram a analisar a complexa evolução política da chamada Primavera Árabe, acontecimento que afectou as relações externas dos Estados Unidos da América (EUA) e da União Europeia (UE) com a região do Norte de África e com o Médio Oriente.

A Prof.ª Doutora Patrícia Daehnhardt abriu as hostes, fazendo um pequeno resumo dos acontecimentos que se verificaram em vários países do Norte de África e do Médio Oriente, em 2011, que num primeiro momento provocou uma certa euforia no Ocidente, que vislumbrou a possibilidade de passagem para a via democrática, mas que, agora, passado mais de um ano, se configura na criação de novos regimes e no aparecimento de novos actores nas relações internacionais - a Turquia e Israel - dando lugar a uma malha complexa de relações políticas.

Ao passar a palavra para os conferencistas convidados, a Professora lança a seguinte pergunta: que balanço se pode fazer da Primavera Árabe e quais as suas consequências para as políticas externas do espaço euro-atlântico?

O Mestre Bernardo Maria Carvalho Alves Pires de Lima (na foto), do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, veio falar sobre a perspectiva norte-americana. As expectativas que se criaram na sociedade Ocidental sobre esta revolução/revolta no mundo árabe foram demasiado elevadas, no que diz respeito à transição para uma democracia. A região do Norte de África e o Médio Oriente não constitui uma realidade espacial homogénea. Há diversos povos e diferentes maneiras de ver o mundo. Não é possível aplicar o modelo "pós 1989" nesta região, pois estamos a falar de países em que as forças políticas não têm estrutura para aniquilar os poderes dos sectores religiosos. Apesar da comunicação social ter falado em revoluções 2.0, divulgadas e incitadas através das redes sociais, a verdade é que, nas eleições, os partidos que advogam um fundamentalismo islâmico tiveram melhores resultados.
Mestre Bernardo Maria Carvalho Alves Pires de Lima
 
O envolvimento dos Estados Unidos é fundamentado por um interesse hegemónico na segurança e estabilidade das fontes de energia e sua circulação e, também, pelo acordo que estabeleceu com o Estado de Israel. Estas premissas constituem o pilar da sua política externa, desde a Guerra Fria até aos dias de hoje, tendo como objectivo final evitar o surgimento de uma potência hegemónica que coloque em causa a sua política - veja-se, a título de exemplo, as causas que promoveram o início da primeira Guerra do Golfo. As administrações de Clinton e de Bush, pai e filho, foram promotoras desta política que usa a força com fins humanitários ou preventivos, que aposta na construção ou reconstrução dos Estados e que estabelece uma agenda de liberdade e de segurança com todas as regiões onde intervinha. No entanto, esta forma de acção externa revelou-se muito dispendiosa a nível financeiro e humano. A administração Obama efectuou um corte com o "internacionalismo liberal e neo-conservadorismo do pós-Guerra Fria". Desta forma, assistiu-se à retirada de tropas do Iraque, o mesmo se prevendo para o Afeganistão. No entanto, Obama carrega consigo os males do passado: não conseguiram a estabilidade desejada para o Iraque (seria o novo aliado no Médio Oriente, visto que têm um potencial energético semelhante ao da Arábia Saudita), não têm um passado diplomático com o Irão, que começa a surgir como a possível potência hegemónica, o Estado de Israel está cada vez mais solto, em termos de tomada de decisões e têm assistido às revoltas e revoluções no background, onde já não ditam as regras, nem são os únicos players. Estas condicionantes vão obrigar Obama, num eventual segundo mandato, a enfrentar esta região de uma forma integrada, tendo em conta as realidades e interesses de cada país.

Na perspectiva da UE, foi dada a palavra à Mestre Ana Isabel dos Santos Figueiredo Pinto (na foto), também da Universidade Nova de Lisboa, que apresentou logo o argumento que a ilusória euforia ocidental se deveu ao facto das elites políticas ocidentais desconhecerem o que realmente se passa na região do Norte de África e no Médio Oriente, pois não existe um contacto com a sociedade civil. A incerteza que a Primavera Árabe provocou no seio das relações internacionais representa, para a UE, um real perigo de segurança, devido à proximidade geográfica e, consequentemente, com vagas maciças de fluxos migratórios (Lampedusa). No entanto, a UE não pode esperar soluções milagrosas pois esses países estão a passar por um processo, e não por um momento, de transição política. Recorde-se, por exemplo, o processo de democratização de Portugal a partir de 1974.

A UE tem que alterar a sua política externa, abandonando a "retórica de promoção da democracia", pois a Primavera Árabe veio revelar que a Europa não tinha contactos com a sociedade civil, apenas com as elites, que perderam a sua força nas quedas dos antigos regimes. Neste momento, têm dificuldades reais em contactar com os partidos políticos destas regiões e não têm interlocutores in loco. A política paternalista da UE e dos EUA perde toda a sua força. Não será a parceria euro-atlântica que saberá o que é melhor para esta região e tem de compreender que se está perante culturas diferentes e que o Islão é uma realidade que tem de aceitar.

A Mestre Ana Pinto concluiu a sua intervenção, referindo que a região do Norte de África e o Médio Oriente têm uma importância estratégica para ambos. Os EUA têm alianças políticas e militares muito particulares (Arábia Saudita, Egipto e Israel), enquanto que a UE tem a questão da proximidade geográfica, já referida, e uma herança histórica que não pode negar: o colonialismo. A parceria euro-atlântica também não se pode esquecer da dimensão energética (dependência) e da dimensão da segurança (ameaça terrorista e migração). Segundo a conferencista, a UE tem de abandonar a ideia que o crescimento económico promove a democracia através da disponibilização de verbas ("não se podem aplicar modelos a papel químico"). Esta tem de ser capaz de estabelecer uma política externa coerente e firme, abandonando a "retórica democrática", adaptar-se aos novos interlocutores destas regiões e saber jogar com os novos actores no palco internacional: Arábia Saudita, Irão e Turquia.

A conferência terminou com um debate entre a assistência e a mesa, onde se discutiram vários temas, tais como a adesão da Turquia à UE, a questão argelina, a aplicação de uma política Estado a Estado e não considerar esta região como algo homogéneo, a afirmação definitiva da UE como actor internacional e, ainda, a questão israelo-palestiniana.

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