Conferência sobre o 25 de Abril e a ruptura com o Estado Novo

Autor: Ruben Moreira Rodrigues/quinta-feira, 24 de abril de 2014/Categorias: Notícias

Rate this article:
Sem classificação

No âmbito das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril de 1974, a Universidade Lusíada de Lisboa, através da Faculdade de Direito, promoveu, no dia 23 de Abril de 2014, um debate sobre "O 25 de Abril e a ruptura com o Estado Novo", com o apoio do Centro de Estudos Jurídicos, Económicos e Ambientais.

A iniciativa, aberta a toda comunidade académica, destinou-se sobretudo aos alunos das licenciaturas em Direito, Relações Internacionais e Políticas de Segurança, no sentido de dar a oportunidade de assistir às intervenções do Prof. Doutor Rui Ramos, historiador e docente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e do Prof. Doutor António Araújo, jurista e historiador.

O primeiro orador falou sobre a importância do golpe de Estado de 1974, realçando a igual importância do 25 de Abril de 1975, dia em que tiveram lugar as primeiras eleições livres e de sufrágio universal para a Assembleia Constituinte, estabelecendo uma democracia parlamentar de tipo ocidental, aprovada em 1976 pela maioria dos deputados.

Para o Prof. Doutor Rui Ramos "[…] sem o 25 de Abril de 1974 não haveria o 25 de Abril de 1975, mas sem o 25 de Abril de 1975, talvez o 25 de Abril de 1974 tivesse adquirido um sentido completamente diferente daquele que veio a ter na história, que é o do nascimento de uma democracia em Portugal".

A "Revolução dos Cravos" revelou, pela primeira vez, a pluralidade da sociedade portuguesa em termos de expressão territorial: "[…] os partidos da direita parlamentar têm votos a Norte, o Partido Comunista Português tem votos a Sul, o Partido Socialista consegue votos equilibrados a nível nacional, mas depois das eleições de 25 de Abril de 1975, mais ninguém pode dizer que o país é uno e só há uma vontade no país", reforçou o orador.

Para terminar, caracterizou o 25 de Abril como um processo interno que teve a sua dimensão internacional quando surgiu a seguinte pergunta: "Onde é que os portugueses se querem situar?". A percepção da esquerda militar que o país não podia viver a não ser no mundo ocidental e a vontade dos partidos maioritários de construir uma nação à imagem dos países ocidentais, levou à adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, reflectindo uma das consequências do 25 de Abril e das alterações que esta revolução provocou nos aspectos económicos, políticos e sociais.

Na segunda intervenção, o Prof. Doutor António Araújo relatou alguns acontecimentos ocorridos no período após o 25 de Abril, como a visita do escritor colombiano Gabriel García Márquez que, depois de visitar várias unidades militares, perguntou pelo papel do povo na revolução. Sobre este episódio, o historiador salientou que a primeira lição do 25 de Abril a reter é que "[…] o 25 de Abril não tem donos, nem proprietários. Faz parte da essência do 25 de Abril ser uma revolução de um país que é legado de todos e é pertença de todos nós".

O orador partilhou ainda com os alunos algumas histórias que constituíram a "arquitectura" do dia 25, no sentido de revelar a verdade histórica e os acontecimentos como eles verdadeiramente ocorreram. Entre outros episódios ocorridos, salientou o facto do Presidente Américo Tomás, que se encontrava no cargo da Presidência da República desde 1958, reeleito em 1965 e 1972, não ter sido localizado nem detido, uma vez que "[…] no plano de operações dos militares de Abril não estava contemplado o cerco à Assembleia Nacional […]". O epicentro do sistema político no Estado Novo encontrava-se na Presidência do Conselho de Ministros, refere.

O Prof. Doutor António Araújo salientou, também, a importância de não se esquecer o papel dos "heróis silenciosos", talvez os que Gabriel García Márquez tentasse encontrar, que eram os democratas que rejeitavam todo o radicalismo, de esquerda e de direita, e que "[…] não ganharam saliência histórica pelo seu radicalismo, mas cuja importância no desenrolar dos acontecimentos acaba por ser tão grande ou maior, precisamente pela sua moderação". Estes heróis, adversários do regime, "aguentaram" o país, numa fase particularmente difícil, aspiravam a um modelo de sociedade mais próximo da Europa Ocidental, com liberdades e desenvolvimento, e não se reviam na continuidade da guerra colonial em África.

Por fim, alertou para o sentido que se deve dar às comemorações do 25 de Abril e ao modo como o comemoramos, de forma a não deixarmos o comemoracionismo  ideológico contaminar, passadas quatro décadas, uma real investigação histórica dos acontecimentos.

O debate, moderado pelo Prof. Ricardo Leite Pinto, revelou o interesse dos alunos e dos professores por este tipo de iniciativas e, em particular, pela história recente do país.

calendário | página web | fotogaleria

Print

Número de visualizações (1130)/Comentários (0)

Ruben Moreira Rodrigues
Ruben Moreira Rodrigues>

Ruben Moreira Rodrigues

Other posts by Ruben Moreira Rodrigues

Please login or register to post comments.